Artigo 06

Direção é mais importante que velocidade

19 de agosto de 2026

Experiência

Temos hoje a sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido. O ano começa e, quando percebemos, alguns meses já ficaram para trás. As semanas parecem menores, os dias mais curtos e as horas insuficientes para tudo aquilo que precisamos fazer.

São compromissos, trabalho, família, estudos, problemas para resolver e decisões para tomar. Em alguns momentos, chegamos a desejar que o dia tivesse 36 horas. Talvez assim conseguíssemos finalmente colocar tudo em ordem.

Mas será que realmente nos faltam horas?

Talvez o problema não esteja no tamanho do dia, mas na quantidade de coisas que tentamos colocar dentro dele.

Pessoa observando no computador uma agenda cheia de compromissos

Assumimos responsabilidades demais. Temos dificuldade para dizer não. Nem sempre conseguimos compartilhar ou delegar tarefas. Às vezes pensamos que explicar para alguém dará mais trabalho do que simplesmente fazer. Em outras, acreditamos que ninguém fará exatamente como faríamos.

E assim vamos acumulando.

Uma tarefa termina e outra começa. Uma preocupação é resolvida e duas aparecem em seu lugar. Aos poucos, estar constantemente ocupado passa a fazer parte da nossa rotina.

Será que nos falta tempo ou estamos colocando coisas demais dentro do tempo que temos?

Uma amiga de trabalho compartilhou comigo uma lembrança interessante. Quando criança, sentia uma enorme curiosidade — e até uma pontinha de inveja — ao observar os adultos sempre correndo de um compromisso para outro, encontrando pessoas e olhando constantemente para o relógio, preocupados em não se atrasar.

Aos olhos daquela criança, aquilo parecia a vida perfeita: ter compromissos, ser notada, ser esperada, ter sempre algum lugar para onde ir.

Os anos passaram. Ela cresceu, começou a trabalhar, fazer compras, assumir responsabilidades e preencher a própria agenda. Não preciso dizer que aquela inveja desapareceu. Aquilo que na infância parecia tão interessante havia se transformado em uma rotina cheia de compromissos e tarefas a cumprir.

Pessoa parada em um cruzamento enquanto outras passam apressadas para seus compromissos

Talvez exista ainda outro problema: começamos a confundir fazer muitas coisas com estar realmente avançando.

Podemos passar o dia inteiro ocupados, resolver dezenas de problemas, cumprir compromissos e concluir tarefas. Mas quantidade de movimento não significa necessariamente crescimento.

Pode ser um movimento na direção errada.

Quando nossa preocupação está apenas em concluir, podemos deixar de perceber detalhes importantes. Fazemos, entregamos e imediatamente começamos outra coisa. A experiência termina, mas talvez pouco dela permaneça conosco.

E é justamente durante o caminho que aprendemos.

São os erros que percebemos, as escolhas que precisamos rever, as pessoas que encontramos e até os momentos em que precisamos parar que podem nos transformar. Algumas experiências precisam de tempo para serem compreendidas.

A direção, portanto, não significa apenas saber onde queremos chegar.

Significa escolher caminhos que nos façam crescer, melhorar e aprender. Significa também planejar antes de simplesmente começar a correr.

Porque podemos fazer muitas coisas rapidamente e, ainda assim, descobrir no final que chegamos a um resultado muito diferente daquele que esperávamos. Não necessariamente por falta de esforço, mas porque faltou parar, observar, aprender e, quando necessário, corrigir o caminho.

Reflexão

Talvez seja esse um dos perigos da pressa: ficamos tão preocupados em terminar que deixamos de perceber o que a própria experiência estava tentando nos ensinar.

Não precisamos de dias com 36 horas. Talvez precisemos escolher melhor aquilo que colocamos nas 24 horas que já temos.

Fazer menos pode, algumas vezes, significar aprender mais. Caminhar no tempo certo permite enxergar detalhes que a pressa esconde. E planejar o caminho nos permite corrigir a rota antes de descobrirmos, lá na frente, que tanto esforço nos levou para um lugar onde não queríamos estar.

A direção certa combina perfeitamente com a velocidade certa. Podemos apreciar o caminho, aprender, errar, corrigir, tudo no tempo certo.

Pessoa contemplando a natureza diante de uma agenda com poucos compromissos

Imagine alguém iniciando uma longa viagem. Antes de acelerar, é preciso saber para onde está indo, escolher um caminho e observar o que acontece durante o percurso.

Afinal, velocidade só é uma vantagem quando estamos seguindo na direção certa. Podemos dirigir rapidamente durante horas e descobrir, mais tarde, que pegamos a estrada errada. Nesse caso, a velocidade apenas nos fez chegar mais depressa ao lugar onde não queríamos estar.

Na vida não deveria ser muito diferente.

Pergunta

Ao final do dia, você costuma pensar apenas no que conseguiu fazer ou também no que aprendeu durante o caminho?

E tudo aquilo que ocupa o seu tempo está levando você na direção em que realmente deseja seguir?


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Silvio Lima

Autor do Alimentar a Alma.

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