Artigo 15
Medo
10 de setembro de 2026
Experiência
Não conheço ninguém que não tenha medo. Em menor ou maior grau, todos já sentiram isso em algum momento da vida. Em uma situação nova, desconfortável, de exposição, sob os olhares de uma plateia ou mesmo de apenas uma pessoa, o medo se faz presente.
Não há nada de errado em sentir medo. O problema são as consequências dele: o quanto ele interfere em nossas decisões e nos faz adiar, mudar ou até mesmo cancelar planos e sonhos.
Passado algum tempo, ao refletirmos sobre determinadas escolhas, podemos nos pegar pensando: como seria nossa vida se tivéssemos feito aquilo que planejamos, mas não fizemos por medo? Quantas vezes aceitamos continuar em algo que já não nos satisfazia simplesmente porque mudar parecia assustador?

Em 2002, fiz minha primeira viagem para fora do Brasil. Passei 20 dias no Canadá durante a Jornada Mundial da Juventude, um encontro com o papa, que na época era João Paulo II.
Três anos depois, em julho de 2005, eu partia novamente, dessa vez rumo à Europa. Passei 35 dias viajando e visitei cerca de cinco países, deslocando-me de avião e trem. O gasto foi alto, mas a experiência de vida valeu muito. E não foi algo que aconteceu por acaso: foi planejado.
Nas viagens que fiz, o medo esteve presente desde o primeiro dia. Todo o planejamento foi feito para que eu tivesse uma alternativa caso algo desse errado. E inúmeras coisas aconteceram: atrasos, perder-me do grupo, tomar chuva, carregar malas pesadas… Mas nada que não pudesse ser enfrentado e superado.
Ligava para casa a cada dois dias. Assim, deixava todos tranquilos e, ao mesmo tempo, permitia que acompanhassem um pouco da minha aventura.

Tenho uma amiga com quem trabalhei por cerca de oito anos. Eu a selecionei, ensinei e treinei para trabalhar como residente em uma empresa na região de Campinas. Ela sempre foi muito esperta e aprendeu tudo muito rápido.
Seus pais sempre apoiaram as duas filhas. A irmã dela estava morando na Inglaterra e frequentemente mandava notícias contando como era a vida por lá. Aos poucos, cresceu nessa minha amiga o desejo de também morar fora do Brasil.
Ela começou a planejar tudo paralelamente ao trabalho e aos estudos. Enquanto isso, a vida seguia seu curso. Ela ficou noiva, casou e, apenas uma semana depois do casamento, estava se mudando para o Canadá.
Tudo havia sido planejado nos mínimos detalhes.
O medo existiu, claro. Era preciso deixar trabalho, família e amigos para recomeçar a vida em outro país. Mas o medo não a impediu de sonhar — nem de se preparar para realizar esse sonho.
Certa vez, ela me disse algo de que nunca me esqueci:
“Não se pode ter tudo na vida. É preciso avaliar o que se ganha e o que se perde e decidir se estamos dispostos a pagar o preço para realizar um sonho.”
Reflexão
Quantas pessoas, ao olhar para trás, não gostariam de ter tomado uma decisão diferente? De ter feito aquela viagem, mudado de emprego, começado um projeto, estudado algo novo ou simplesmente tentado aquilo que durante tanto tempo tiveram vontade de fazer?
Naquele momento, talvez o medo tenha falado mais alto. Parecia mais seguro esperar. Afinal, sempre haveria outra oportunidade.
Mas o tempo passou.
E aquilo que antes dependia principalmente de uma decisão pode hoje depender de muitas outras coisas. Surgiram responsabilidades, compromissos, pessoas que dependem de nós. Talvez já não exista a mesma disposição, a mesma condição financeira ou até mesmo a saúde necessária para realizar aquele antigo sonho.
Isso não significa que devemos tomar decisões de maneira impulsiva ou irresponsável. Minhas viagens foram planejadas. A mudança da minha amiga para outro país também foi. O medo estava presente nos dois casos, mas havia preparação para enfrentar aquilo que poderia acontecer.
Talvez esse seja um dos papéis do medo: nos fazer avaliar os riscos e nos preparar melhor. O problema começa quando, em vez de nos proteger, ele passa a decidir por nós.
Porque algumas oportunidades podem voltar. Outras, não.

E talvez uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer a nós mesmos seja:
daqui a alguns anos, vou me arrepender mais de ter tentado ou de ter deixado de tentar por medo?
Encarar que o medo sempre estará presente é essencial, assim como compreender que nós também mudamos ao longo da vida. Com isso em mente, podemos fazer escolhas mais conscientes, não sem medo, mas apesar dele. Quando sabemos o que queremos, podemos avaliar o que ganhamos, o que perdemos e se estamos dispostos a pagar o preço por aquela escolha.
E mesmo quando escolhemos partir, mudar ou seguir outro caminho, isso não significa necessariamente abandonar tudo o que ficou para trás. Podemos preservar vínculos, cultivar os laços e, quando possível, até reconsiderar o caminho escolhido.
Pergunta
Que sonho você já adiou ou deixou de realizar por medo?