Artigo 14

Um quilo de bom senso, por favor

10 de setembro de 2026

Experiência

Ao longo da vida, passei por diversas experiências que me levaram a questionar aquilo que eu acreditava ser certo, correto e definitivo.

À medida que fui acumulando vivências, situações e encontros, também fui me moldando. E continuo nesse processo. Aliás, acredito que farei isso até o fim, porque somos uma obra em constante construção.

Entre tantas experiências, duas ficaram marcadas em mim.

A primeira aconteceu em 2005, durante uma viagem em grupo pela Alemanha, na cidade de Duisburg. Éramos cerca de 30 pessoas e fomos divididos em grupos menores para ficarmos hospedados em casas de famílias alemãs. Eu fiquei com mais três pessoas na casa de uma família.

Viajante brasileiro chegando à casa de uma família alemã durante viagem em 2005

Quando chegamos, fomos recebidos na cozinha pela mãe da família. Ela abriu um enorme sorriso. Estava organizando algumas coisas no armário e fumando.

Assim que nos viu, disse “Hi” e, querendo ser gentil com os convidados, ofereceu o cigarro.

Sem pensar muito, peguei no braço dela e disse que fumar não fazia bem à saúde e que eu gostaria de vê-la sempre feliz como estava naquele momento.

Ela me olhou, me abraçou e disse algo que nunca esqueci:

— Eu adoro brasileiros. Vocês são tão carinhosos e cuidadosos.

O dia passou. À noite, todos estavam reunidos à mesa: marido, esposa, filhos e nós, os brasileiros.

Em determinado momento, ela olhou para mim e disse:

— Silvio, eu contei para o meu marido o que você fez.

O marido me olhou sorrindo e agradeceu.

Depois do susto inicial, fiquei mais tranquilo. Fiz aquilo sem pensar muito, porque, na minha cabeça, parecia ser o certo. Ainda bem que não fui mal interpretado.

Anos depois, vivi outra situação completamente diferente.

No final de um dia, a caminho de casa, passei por um ponto de ônibus. Uma mulher me pediu ajuda para completar o valor da passagem.

Havia vários ônibus parados, eu estava com pressa e muito focado nos meus próprios problemas e nas coisas que ainda precisava fazer. Não dei atenção. Simplesmente continuei andando.

Homem seguindo seu caminho enquanto uma mulher tenta chamar sua atenção em um ponto de ônibus

Uns dez minutos depois, enquanto caminhava rapidamente, bateu o arrependimento.

Parei.

Voltei todo o caminho até o ponto de ônibus procurando aquela mulher.

Não a encontrei.

Caminhei pela região, procurei em outros pontos próximos, mas ela já havia ido embora.

Era um dinheiro que não faria falta para mim. Também não mudaria a vida dela.

Mas poderia ter resolvido um problema naquele momento.

O que me fez voltar não foi o dinheiro.

Foi quando consegui me colocar no lugar dela.

Na casa da família alemã, algo dentro de mim dizia:

“Fale. Demonstre cuidado.”

No ponto de ônibus, porém, algo dizia:

“Continue andando. Você já tem problemas demais para resolver.”

Em uma situação, agi.

Na outra, perdi a oportunidade.

Reflexão

Talvez o bom senso não seja uma lista de regras prontas.

Entendo o bom senso como a capacidade de parar por alguns instantes, observar uma situação e considerar as consequências daquilo que estamos prestes a fazer — ou deixar de fazer.

Nem sempre existe uma resposta perfeita.

Às vezes, o bom senso nos pede para falar.

Em outras, para ficar em silêncio.

Às vezes, pede para agir imediatamente.

Em outras, para esperar.

Às vezes, pede disciplina.

Em outras, descanso.

Talvez a dificuldade esteja justamente nisso: o bom senso depende da situação, das pessoas envolvidas e da nossa capacidade de perceber aquilo que acontece além dos nossos próprios interesses.

Se usássemos um pouco mais de bom senso todos os dias, quantas coisas faríamos de maneira diferente?

Falar mais ou apenas o necessário?

Comer tudo aquilo que temos vontade ou aprender a limitar?

Passar horas trabalhando, estudando e resolvendo problemas sem perceber o corpo e as pessoas ao nosso redor, ou buscar algum equilíbrio?

O curioso é que muitas vezes sabemos a resposta.

Mesmo assim, escolhemos ignorá-la.

Talvez porque estejamos com pressa.

Talvez porque estejamos preocupados.

Talvez porque nossos próprios problemas ocupem todo o espaço disponível.

E é justamente nesses momentos que o bom senso parece fazer mais falta.

Bom senso não deveria ficar guardado no bolso esperando uma ocasião especial.

Ele foi feito para ser usado.

Balança de feira pesando um quilo de frutas

Há uma frase que circula pela internet como se alguém estivesse fazendo um pedido em uma feira ou em uma padaria:

“Por gentileza, meia dúzia de bom senso, duas doses de sinceridade e um quilo de sensibilidade…”

Sinceridade e sensibilidade também são importantes, mas eu reforçaria o pedido e diria:

Um quilo de bom senso, por favor.

Pergunta

Quanto das nossas decisões mudaria se, antes de agir, usássemos apenas um pouco mais de bom senso?


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Silvio Lima

Autor do Alimentar a Alma.

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